sidney bechet

sidney bechetSidney Bechet foi o primeiro solista importante nos registros da história do jazz. O primeiro músico de jazz internacional, Bechet era praticamente desconhecido na América. Um saxofonista soprano e clarinetista brilhante, cujo estilo não evoluíu muito ao longo dos anos, mas ele nunca perdeu o entusiasmo e a criatividade. Um mestre na improvisação individual e coletiva dentro do gênero de jazz de Nova Orleans. Sidney Bechet foi tão dominante que os trompetistas achavam muito difícil tocar com ele e os demais músicos tinham problemas por ele sempre querer ser a voz principal. Ao longo de sua vida, ele nunca teve a disciplina necessária para tocar em uma banda normal, ele sempre preferiu ser um solista e trabalhou em várias bandas. Sidney Bechet estudou clarinete em Nova Orleans com Lorenzo Tio, talvez o único instrumentista de jazz de Nova Orleans a tocar o oboé; com ‘Big Eye’ Luís Nelson, um dos pioneiros do jazz e auto-didata no clarinete que também tocava acordeão, guitarra, banjo, violino e contrabaixo; e com Baquet George, uma influência importante sobre Sidney Bechet.

sidney bechet & charlie parkerSidney Bechet, o imortal quase esquecido, nasceu em 1897, apenas três anos antes de seu compatriota Louis Armstrong, o mais lembrado músico de jazz de Nova Orleans. Embora os dois meninos crescessem na mesma cidade, os ambientes de suas casas eram mundos separados. Armstrong cresceu em extrema pobreza, vivendo alternadamente com a mãe e uma sucessão de padrastos e sua avó, e passou grande parte num reformatório. Sidney Bechet, que era de ascendência crioula, cresceu em um ambiente de classe média. Seu pai, Omar, que era sapateiro, tocava flauta como hobby. Na verdade, a música teve um papel importante na família Bechet, como Sidney quatro irmãos também tocavam instrumentos. Seu irmão, Leonard, tocava clarinete e trombone, e foi pelo primeiro instrumento que Sidney de oito anos de idade, foi atraído. Leonard, cujo interesse principal era o trombone, passou o clarinete para seu irmão mais novo. E Sidney tocava valsas e quadrilhas, as únicas músicas toleradas na classe média. Mas, na adolescência, Sidney foi atraído pela música sincopada tocada nos salões de dança e bordéis no distrito de Storyville de Nova Orleans. E como ele se tornou um prodígio no clarinete, passou a tocar em bandas de jazz locais. E seu modo de tocar impressionou Bunk Johnson, o lendário trompetista, que o convidou a participar de sua banda, a ‘Eagle Band’. E sua mãe lhe deu permissão para tocar nos clubes de Storyville, desde que Bunk Johnson, que atuou como uma espécie de guardião, o trouxesse para casa a cada noite.

sidney bechet & django & benny goodmanEm 1915 fez uma turnê no Texas, em uma banda liderada por Clarence Williams. Em 1917, com 19 anos, deixou Nova Orleans viajando para Chicago com o pianista Clarence Williams e seu show de variedades e tocou com King Oliver e depois com Freddie Keppard. E sua grande chance veio em 1919 quando o compositor regente Will Marion Cook pediu-lhe para se juntar à sua ‘Southern Syncopated Orchestra’ para uma apresentação em Londres onde Bechet chamou a atenção do notável maestro suíço, Ernst Ansermet, que conduziu a música de Stravinsky para o Ballet Russo. E Ansermet escreveu em um jornal musical suíço sobre o extraordinário virtuosismo de Bechet e sua genialidade no clarinete. Mais tarde, Sidney Bechet, eventualmente, se tornou ainda mais conhecido como um virtuoso do saxofone soprano. Primeiro ele tentou tocar um sax soprano que comprou em uma loja de penhores, mas tal era a dificuldade do instrumento, que Bechet desistiu e obteve seu dinheiro de volta. No último ano em Londres, comprou um instrumento novo e tentou novamente. Desta vez ele foi bem sucedido e conseguiu fazer do sax soprano uma voz importante no jazz. Voltou para os EUA, e fez sua primeira gravação em 1923, com Clarence Williams e durante os próximos dois anos, ele interagiu com Louis Armstrong e tocaram alguns solos impressionantes. Depois foi para a orquestra de Duke Ellington por um período. No entanto, a partir de 1925 foi para o exterior.

Grande parte da carreira de Sidney Bechet foi no exterior. Em 1925 tocou na banda do pianista Claude Hopkins, que estava acompanhando a célebre cantora e dançarina norte-americana, naturalizada francesa Josephine Baker, considerada como a primeira grande estrela negra das artes cênicas. Bechet também tocou em Londres e Paris nas bandas lideradas pelo compositor, maestro, cantor e dramaturgo Noble Sissle e, posteriormente, nos Estados Unidos. Em 1932, Bechet e seu amigo trompetista Tommy Ladnier, formaram a banda ‘New Orleans Feetwarmers’. Quando as apresentações para a banda tornaram-se escassas os dois abriram uma alfaiataria no Harlem. E Bechet se tornou um especialista em roupas. No entanto, em 1938, ele gravou o hit ‘Summertime’, com Meade ‘Lux’ Lewis e Bunn Teddy. Ele também gravou com Jelly Roll Morton. E logo ele assinou contrato com a ‘Bluebird’, onde gravou alguns clássicos durante os próximos três anos.

sidney bechet

Sidney Bechet e sua banda em 1920. Sidney Bechet fez algumas gravações com Louis Armstrong e estas constituem um dos mais importantes registros do jazz de Nova Orleans.

Quando em 1945 se mudou para o Brooklyn, para aumentar a sua renda instável de um músico de jazz, começou a ensinar música. O adolescente que se tornou seu pupilo e discípulo foi Bob Wilber, a quem Bechet ensinou os rudimentos do clarinete e saxofone soprano. Hoje, Bob Wilber é um expoente nos dois instrumentos, e com seu próprio grupo, o ‘Bechet Legacy’, ele toca na tradição de Sidney Bechet. Em 1949, Bechet foi convidado para o ‘Salle Pleyel Jazz Festival’, em Paris, onde causou sensação, e decidiu mudar-se definitivamente para o exterior. Grande parte da sua vida, Bechet passou na França onde era uma grande celebridade e um herói nacional onde o chamavam carinhosamente de ‘Le Dieu’. Sua música foi elogiada pelos existencialistas de Jean Paul Sartre. E muitas de suas composições são inspiradas por seu amor a este país, a França, onde seus talentos especiais foram plenamente reconhecidos, enquanto nos EUA nem sabiam quem ele era. Em 1952 a canção ‘Petite Fleur’ se tornou um sucesso mundial. Sidney Bechet morreu em Paris, em 1959 de câncer. Em 1997, foi criado ‘The Sidney Bechet Society’ para perpetuar o nome de Sidney Bechet, e patrocinar shows, simpósios, estudos e boletins informativos sobre este grande pioneiro do jazz.

sidney bechet - I got the right to sing the blues


‘The Legendary’ traz faixas entre 1932 e 1941, e a inclusão de ‘The Sheik of Araby, a gravação de uma banda de um homem só, o primeiro exemplo conhecido de ‘overdubbing’, técnica de gravação que consiste em adicionar novos sons a uma gravação já anteriormente realizada. Em ‘The Sheik of Araby’ Bechet é um multi-instrumentista, gravou em diferentes instrumentos: clarinete, sax tenor, piano, baixo e bateria. Cada versão tinha que ser gravada em um disco mestre novo, juntamente com o desempenho anterior. A novidade foi divulgada como ‘Sidney Bechet One Man Band’. A Federação Americana de Músicos protestou contra a gravação, pondo fim às experiências com ‘overdubbing’ comercial nos Estados Unidos durante anos. Neste álbum, as músicas foram brilhantemente capturadas com uma fidelidade extraordinária, com exceção de ‘The Sheik of Araby’ devido à sessão de ‘overdub’ houve perda de qualidade do som.

As faixas de ‘High Society’ foram gravadas em 1955 em um concerto em Paris. Sidney Bechet, no auge de sua fama, diante de uma platéia entusiasmada, executa músicas com as bandas do clarinetista francês Claude Luter, mais conhecido por ser acompanhante para Sidney Bechet, quando ele estava em Paris e Andre Reweliotty, outro clarinetista e maestro que acompanhava Sidney Brechet, tanto em concertos como em diferentes discos.

sidney bechet - the legendary (1988)    sidney bechet - high society (1998)

The Legendary (1988)    |    High Society (1998)

The Legendary
01. Maple Leaf Rag 02. I've Found a New Baby 03. Weary Blues 04. Really the Blues 05. High Society 06. Indian Summer 07. Sidney's Blues 08. Shake It and Break It 09. Wild Man Blues 10. Save It, Pretty Mama 11. Stompy Jones 12. Muskrat Ramble 13. Baby Won't You Please Come Home 14. The Sheik of Araby 15. When It's Sleepy Time Down South 16. I'm Coming Virginia 17. Strange Fruit 18. Blues in the Air 19. The Mooche 20. Twelfth Street Rag 21. Mood Indigo 22. What Is This Thing Called Love?

High Society
01. Presentation 02. Blues In The Air 03. Wild Man Blues 04. Everybody Loves My Baby 05. Wild Cat Rag 06. I Don't Know Where I'm Going 07. Viper Mad 08. Halle Hallelujah 09. Kansas City Man Blues 10. Les Oignons 11. Old Fashioned Love 12. Charleston 13. Swanee River 14. Southern Sunset 15. Ol' Man River 16. High Society 17. Dans Les Rues D'Antibes 18. Panama Rag 19. Royal Garden Blues

sidney bechet - petite fleur (2004)

Petite Fleur (2004)

Tracklist
01. Petite fleur 02. Dans les rues d'Antibes 03. Marchand de poissons 04. Buddy Bolden story 05. Egyptian fantasy 06. Lastic 07. En attendant le jour 08. Les oignons 09. Si tu vois ma mère 10. Madame Bécassine 11. Bechet creole blues 12. Mon homme 13. Ce môssieur qui parle 14. Moulin à café 15. Promenade aux Champs-Élysées 16. September song 17. Summertime 18. Blues in Paris

sidney bechet - tresors (2006)

Tresors (2006)
CD 1    CD 2    CD 3    CD 4

CD 1
01. Ce Mossieu Qui Parle 02. Buddy Bolden Story 03. Bechet Creole Blues 04. Anita's Birthday 05. Les Oignons 06. Ridin' Easy Blues 07. Blues In Paris 08. Panter Dance (Tiger Rag) 09. Orphan Annie's Blues 10. Happy Go Lucky Blues 11. Klook's Blues 12. American Rhythm 13. Out Of Nowhere 14. Mon Homme 15. Temptation Rag 16. Riverboat Shuffle 17. Sobbin' And Cryin' 18. Everybody Loves My Baby 19. Struttin' With Some Barbecue 20. Sawmill Blues 21. Ni Queue Ni Tete

CD 2
01. Moulin A Cafe 02. Maryland My Maryland 03. Careless Love Blues 04. Moustache Gauloise 05. Francis Blues 06. Casey Jones 07. Blues In My Heart 08. Lastic 09. Madame Becassine 10. Down Home Rag 11. Society Blues 12. Bill Bailey Won't You Please Come Home 13. Royal Garden Blues 14. In The Groove 15. Promenade Aux Chamips-Elysees 16. En Attendant Le Jour 17. Wolverine Blues 18. Egyptian Fantasy 19. Blues In The Cave

CD 3
01. Kansas City Man Blues 02. Togetherim 03. Apex Blues 04. Sleepy Time Gal 05. Of All The Wrongs You've Done To Me 06. Darling Nelly Gray 07. Put On Your Old Grey Bonnet 08. Sidneys Wedding Day 09. Ghost Of The Blues 10. Strike Up The Band 11. Si Tu Vois Ma Mere 12. Wabash Blues 13. Pattes De Mouche (Mouche A Miel) 14. Le Marchand De Poissons 15. As-Tu Lecafard? 16. Dans Les Rues D'antibes 17. That Old Black Magic 18. Because Of You (Sans Ton Amour) 19. Petite Fleur 20. I Get A Kick Out Of You 21. Blues 22. Girl's Dance 23. It's No Sin (Est-Ce Un Peche?) 24. You're Lucky To Me

CD 4
01. Milenberg Joys 02. Blue Room 03. Rockin Chair 04. Big Butter And Eggman 05. My Melancholy Baby 06. Limehouse Blues 07. I Got The Right To Sing The Blues 08. Black Bottom Stomp 09. Baby's Prayer 10. Lazy River 11. Stars Fell On Alabama/Lazy River 12. Twelfth Street Rag 13. Au Clair De La Lune 14. Porter's Love Song 15. Embraceable You 16. Ol' Man River 17. Show Boat Medley 18. You, Rascal You 19. Le Loup, Ta Biche Et Le Chevalier

4 comentários:

Edison Junior disse...

Muito legal, Mara, não se encontra muito material sobre Bechet por aí.

É engraçado como na Europa se deu muito mais valor a alguns músicos americanos do que em seu próprio país. Não foram poucos os que fizeram sucesso primeiro lá. Ou, mesmo que tenham feito sucesso nos EUA antes, eram mais bem tratados e artisticamente reconhecidos na Europa, como foi o caso do próprio Louis Armstrong. E, parece, começa pelo preconceito de cor, que para os europeus (na França pelo menos) tinha menos importância. Na Europa os músicos negros podiam hospedar-se nos mesmo hoteis que os brancos, comer no mesmo restaurante etc.

Mais um ótimo post!

mara* disse...

O mesmo acontece por aqui, quem conhece Eliane Elias, Flávio Guimarães, Blues Etílicos, Ithamara Koorax e tantos outros, que fazem sucesso no exterior enquanto aqui rola só porcaria? É sempre bom ter o seu comentário aqui. Adoro! Beijão.

Sergio disse...

Naylor "Proveta", Laercio de Freitas, Alessandro Pennezi, Yamandu Costa, Andre Mehmari, Arismar do Espírito Santo, Thiago do Espírito Santo, João Macaão, Zé Barbeiro, Ulysses Rocha, Benjamin Taubkin...cansei.
"...enquanto aqui só rola porcaria"?

mara* disse...

Reafirmo meu caro Sergio, aqui só rola porcaria...basta dar um giro pelas paradas de sucesso...luan santana & ivete sangalo, parangolé, exaltasamba, zeze di camargo, aviões do forró, chiclete com banana, sorriso maroto, o traficante belo...poucos são os que conhecem e ouvem os mestres citados por vc...

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